domingo, 30 de agosto de 2009

O barbeiro de Urinópolis



O Peideiedeium do prefeito de Urinópolis – cidadão egrégio de algum manicômio medieval foucaultiano - parece que vai agradar gregos, gringos, empresários da construção civil e troianos com exceção da população sadomasoquista do lugar – o único caso que eu conheço em que um político conseguiu se reeleger mesmo com altíssimos índices de rejeição. O Lunático correligionário do Ministro Jadeu (que já deu uma rasteira no trôpego mandatário do Estado) está iniciando o processo de privatização da Cidade Baixa –no caso, a orla marítima que vai do Humaitá até São Joaquim – sob a alegação de melhorias no espaço urbano: construções de calçadões, parques, praças, limpeza de praias. Na verdade, todos nós sabemos quem vai usufruir deste projeto: a especulação imobiliária que vem dando uma ofensiva na Vila Mijo tentando transformá-la num aprazível balneário de Classe Média. O problema é que tradicionalmente esses planos de urbanização implementados nesta cidade não estão interessados em proporcionar melhorias para a sua população não abastada, uma vez que esta em sua maioria não se hospeda em Hotéis, nem torra a grana em Shopping Centers, muito menos tem aporte financeiro para residir em Flats, Resorts e grandes condomínios, principais atrações que ocuparão o lugar dos antigos moradores – o que será o caso quando da desapropriação daquela área da Cidade Baixa. O prefeito João Gardenal nem se preocupa em lucrar politicamente com o fato – pelo jeito ele espera obter outro tipo de lucro - tal a banalização como vem lidando com o tema. Nem mesmo promete indenizações atraentes – medida que, por sinal, já seria por si só simbolicamente insuficiente. O aloprado apenas aponta a possibilidade de relocá-las para outra área da cidade – provavelmente um novo bairro tipo Boca da Mata XX, totalmente identificado com a história de vida e interesses diversos deste contingente populacional.


Ademais o fedor deste Peideiedeium do Henrico ironicamente parece que está fazendo vítimas nessa mesma Classe Média, mais precisamente na região da Avenida Paralela. Uma praga de barbeiros tem assustado os moradores dos condomínios de luxo que se instalaram após o desmatamento do residual de Mata Atlântica na cidade para a própria construção destas modestas habitações. Parece que os besourinhos que transmitem a incurável doença de chagas estão cagando na cara dos barões para nos lembrar da selvageria que é esse processo de “desenvolvimento” urbano do nosso pinicão.

Fico imaginando essa Vila daqui a trinta anos: uma estufa com temperatura mínima de 30 graus no inverno gradeada de espigões em sua orla, sem vegetação e com o SUS em colapso devido às altas taxas de doenças cardíacas – seja devido à raiva ou ao tripanozoma cruzi -, intoxicação por uréia e crises epilépticas após oito anos de certa gestão João Henrique Roubadas Carneiro.

Nota: Veja o que aqueles que engordarão o bolso com esse Peideiedeium têm a dizer:

http://www.youtube.com/watch?v=AtMPYhbFtls


domingo, 26 de julho de 2009

O fim do mundo


Morava numa cidade litorânea estampada numa falha geológica que a dividia em duas, metida num calor fétido de uréia e maus-tratos, disposta em sorrisos desdentados que sucumbiam a uma quase falsa realidade. O tempo era bom na maioria das vezes, bom também era o seu tempero agridoce e apimentado. Morava só naquela cidade-cataclisma decorada de devaneios, filtrada de vícios, opulenta, raquítica e abjeta. Perto de mim habitavam olhos sonolentos e furados, de indigente polidez com seus gritos diários sons estridentes e má faxina. Perto de mim alguém que amei na noite anterior com outro alguém que mais caro pagou em notas mais verdes. Perto de mim um quarto violado por corpos que desertaram do cotidiano das ruas para desaparecer com seus cachimbos entre quatro paredes. O tempo estava sólido naquele momento arruinado de preces para os próximos dias. Morava nela, no alto, sem pressa de descer para comprar pão, sem saliva para forrar o estômago de ácido, sem destreza para acompanhar as colegiais de um cubiculo em frente. Morava no antro em que nasci para testemunhar os favores das rodas, as mesmas que indicavam círculos e cozinhavam em panelas cedidas pelos mesmos amigos que exortavam a si e aos seus para os de sempre. Morava sem móveis e ali trabalhava para alucinar alguns demais daquela vila, ou cidade ou quitanda num bosque desmatado. Perto de mim um sol abrasador adoecia o ambiente colhendo suores tímidos dos passistas habilidosos que se equilibavam nos buracos. Perto de mim dois idosos sendo despejados, duas cadeiras atiradas na escada e as colegiais em coito no meio da minha tarde.

Enfastiei-me das cenas na janela e liguei a tv para disfarçar a pouca presença do som ao meu redor. Ainda trabalhei um pouco vendendo artigos para a mente de uns vizinhos assolados pela peste, quando veio o noticiário em meio a duas novelas e pude, enfim, entrar em convulsão: o locutor pálido desfiava uma informação improvável de marolas gigantes que atingiriam aquela metrópole em poucas horas, só restava fugir e deixá-la para trás ou para os abutres. E nem sabia se era eu verdade no tremor do meu corpo ou se eram meus os olhos revirados e se minha era a boca de espuma ou se aquela era uma seringa em meu braço. Enquanto jazia fresco nas linhas quebradas dos tacos, regi buzinas atarantadas, gritos cortados, choros milimétricos e portas saltando para o asfalto. Pressentia um desespero único que vinha de tantos enquanto vomitava o óleo saturado do almoço. Sinos já tocavam, loucos se atiravam mais acima e as aves migratórias retornavam para o inverno – notei que vários cães uivavam deixados para trás. Imaginei o dia posterior naquela cidade: um silêncio fecal carcomido pelo salitre.


Nota: Texto tirado de um manuscrito feito em um embrulho de pão encontrado nos escombros de um edificio na Sete Portas.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

UM PEIXE CHAMADO WANDA


Olhando atentamente a crítica de cultura na imprensa de Urinópolis é possível obter algumas conclusões: uma delas é a de que a dita crítica é permeada pelo pensamento de que “fulano é amigo de beltrano e não vai ficar bem falar a verdade sobre este, pois o mesmo pode me prestar algum dia um favor”, ou seja, fala mais alto a lógica do “beija mão” ou lambe o saco e das relações de agrado e bajulação típicas da terra (ou da senzala) do bolinho de feijão frito no azeite passado. Alguns teóricos chamariam essa prática de “a essência da baianidade”, nós chamaríamos de descaração (ou república da jabaculância).

Outra conclusão que pode ser tirada desse olhar detido é a de que essas críticas são mediadas pelo complexo de cachorro-vira-lata dos artistas(sic) locais, visto que não se pode ter uma opinião negativa dos produtos da terra que são feitos com muita dificuldade, poucos recursos e percurso atribulado – vide os filmes de alguns cineastas(?) e o roquinho baiano( esse heroísmo sempre deve ser abençoado mesmo que seu resultado na maioria das vezes seja bem chinfrim) ; ou mesmo pelo bairrismo (ou seria burrismo?) deslavado em relação aos nomes que elevam a Bahia ao patamar de celebridades nacionais – como o pessoal da gangue do aché (recusamo-nos a grafar a palavra corretamente em respeito ao seu significado) que trucidou nossa inteligência e bom gosto, nos atormentando há quase trinta anos com suas músicas (ou seriam arrotos?).


O produto crítico mais evidente disso resulta em análises (sic) negociadas em benefícios dos envolvidos: jornalistas de ocasião (ou seriam chapas brancas?) e artistas(?). Negocia-se avaliações fundamentadas – suspeitamos que até mesmo os arautos e omissos representantes do jornalismo cultural de longa data não sejam capazes de beliscar o bom gosto estético, teórico e analítico – por abarás ou acarajés nas quituteiras mais famosas da cidade. Obviamente que além dessas lógicas, práticas e pensamentos em que a crítica urinopolitana está submetida há o jabá – carne seca meu pirão primeiro –, e o jogo de interesses de produtores, gravadoras, empresários dos meios de comunicação e afins.


O mais recente evento ou factóide desse informe e infame universo midiático envolve um rechonchudo jornalistae um famoso cantor de pagode cujo deslace foi o convite medievo a fim de duelarem para verificar quem era mais "hômiou mais besta. A tudo isso, aliam-se ainda a péssima formação intelectual dos profissionais que chamaríamos de semi-alfabetizados – vocês já devem ter assistido às intervenções constrangedoras dos debilóides de certo programa nativo que passa no canal hegemônico nas noites de domingo – e o pertencimento desses às panelinhas (cada setor artístico tem a sua). Peixes de aquário comem limbo. Para nossa desgraça, aqui parece que eles comem, além disso, acarajé, bolinho de estudante e ...outras coisinhas impublicáveis.

O absurdo estava do outro lado da tela.


Pinico City está oferecendo alternativas de lazer para seus habitantes. É uma experiência inusitada essa. Mais recentemente, um suntuoso shopping dessa mixórdia, localizado perto de um esgotão no coração financeiro da cidade -talvez esteja aí para aplacar a fedentina das negociatas e “malvadezas” que se fazem por lá -resolveu retomar uma programação cinematográfica mais requintada.

O filme do cineasta italiano Pier Paolo Pasollini, Contos de Canterbury, está sendo exibido nesse grande estábulo. Para se conseguir comprar um ingresso para assistir a “película” do bardo italiano – esse sim podia receber o epíteto de cineasta, afinal produzia filme e fazia cinema, ao contrário dos amontoadores de imagens locais, quase todos pedintes e/ou esmolés dos cofres públicos –, gastou-se, em média, trinta minutos. O problema não estava só na demora para adquirir o famigerado papelão que dava acesso ao local, que em outros lugares é chamado de ingresso, bilhete etc. Mais duro mesmo foi assistir aquele tenebroso desfile: moças supostamente elegantes que trajam roupas dignas de bailes de debutantes usadas, para espanto dos incautos, em domingo ensolarado e quente. Há algo de suburbano nessas moçoilas, não seria maldade pensar assim. Elas estavam, como sempre, acompanhadas de seus digníssimos cônjuges, portadores de um jeito inusitado de comportar-se: indiferença em relação às moças e vestimentas que combinam a indefectível camisa xadrez, quase sempre, por dentro da calça jeans (o que parece ressaltar ainda mais a pança bem fornida) e sapato de couro marrom. Na sala de exibição, a impressão que se tinha era a de que aquela era a sala de um consultório geriátrico visto que a “média” de idade estava em torno de sessenta anos, mas era bem provável se “bater” com alguns na faixa dos noventa e....

Fora do estábulo reluzente, limpo por negros mais maltratados do que cavalos paraguaios, acontecia mais um festival dos detratores do bom gosto e dos nossos ouvidos que um famoso compositor baiano insiste em elogiar e enxergar como sinal da modernidade do samba. Isso claro, com a conivência e o beneplácito dessa imprensa e crítica musical Zé Ruela que se faz nesse mega favelão. O lixão não está apenas em Canabrava.


Por Ed Rose da Sucursal do Alto das Pombas


domingo, 12 de julho de 2009

Guardaremos o sábado







Acostumem-se leitores, pois nós guardaremos os sábados. Não que fiquemos de quatro em direção à Meca, ou que estamos em alguma igreja evangélica da vida contando a grana do dízimo e bolinando menores com os pastores - é bom lembrar que os padres fizeram escola. Esse é o dia que escolhemos para a cachaça - na verdade não nos importamos com esse sub-drink e sim com chope da Heineken e cerveja Stela Artois ou algum bom vinho.

Vocês podem nos encontrar na "night"(sic) de Urinópolis se é que é possível caracterizar assim as quitandas e pocilgas sem graça desta vila chinfrim com seus freqüentadores-zumbis quase todos conhecidos entre si circulando entre os "agitadíssimos" bairros do Rio Vermelho, Barra e Pituba - no Campo Santo rola mais jogo.

Aliás, o "point da galera" conhecido como Rio Vermelho - o nome deve ser em homenagem a um canal de esgoto que passa no meio do lugarejo - pode-se encontrar a turma roqueira - aquele pessoal semi-alfabetizado que usa preto até nos olhos e que utiliza a depressão para se viciar em lexotan - que circula entre as casas ( ou serão palafitas?) de show onde contrangedoras atrações maltratam baixo, guitarra e bateria. Tem a turma toc-toc pipi [ aquelas sem alfabetização que fazem escova progressiva no cabelo pintado de loiro ou vermelho(para esconder os traços de negritude) e seus namorados barrigudinhos com camisa de manga comprida por dentro da calça]. Tem o largo da Dinha, mas aí é para mais um fim de noite decadente comendo hot dog de soja... bem, o leitor deve ter percebido que diante do quadro dantesco voltamos sempre ao lar às 11 da noite.




Nota: Só agora perceberam que Urinópolis não está incluída no circuito de grandes espetáculos por falta de espaços decentes. Aí vão duas teorias: talvez a gangue que executou o que restava de bom gosto na cidade comandada pelos Bel's, Ivetes, Durvais e Leites da vida tenha criado obstáculo para não concorrer com os ensaios e festinhas kitsches que organizam em caramanchões durante o ano; ou talvez o público morador da vila-favelão não se interesse em ver outras atrações sem o mesmo nível dos músicos da terra.






sexta-feira, 10 de julho de 2009

O mal-estar de Ed Rose


Ed Rose é uma pessoa pouco afeita a firulas metafísicas. Cultivada nos bancos escolares do pragmatismo, é impaciente com elucubrações teóricas e discussões intermináveis. Cultiva ainda uma leve desconfiança pela retórica excessiva e olha de soslaio para os barroquismos de matizes diversos. Valoriza um estilo, às vezes, quase seco que alguns confundem com rudez e outros com grosseira. Jura que não namorou o conservadorismo político que fez a festa no Brasil ao longo da década de noventa e início dos anos 2000 e não ocupa nenhum cargo em qualquer secretaria de cultura quer do governo de estado quer da prefeitura da sua cidade. As ambigüidades de Ed Rose são muitas, mas nada que fira seus princípios que um dia flertou com certo igualitarismo ingênuo: se diz adepta da, até agora indefinida, teoria da neutralidade estratégica.

Anda pela cidade, especialmente naqueles circuitos de arte e cinema que atrai pouco apelo popular, por assim dizer, mas não dispensa um bom blockbuster. Por isso, não deixa de ser alvo de risos e gracejos dos amigos mais retilíneos. Isso lhe atormenta aos domingos à noite. Veste aquilo que os fashionistas chamam de casual básico: jeans, camiseta e alguns adornos (não aquele da indústria cultura, deste Ed Rose quer distância). De vez em quando usa óculos com design italiano que tem feito a cabeça de estudantes de comunicação. Mesmo assim não está à vontade nesse figurino. Tem, ultimamente, achado tudo demodê. É provável que Ed Rose assuma no futuro uma vestimenta mais solene, afinal não se pode desprezar a ação do tempo, ele também ataca o seu esqueleto, seu espírito jovial e livre.

Ed Rose curte uma estranha mistura de Roberto Carlos, Odair José, Chico Buarque, Radiohead, Interpol, Joy Division, Kinks, Moby Grape e outros nomes inclassificáveis, mas chora mesmo ao som das músicas de Evaldo Braga e Fernando Mendes. Diz não tolerar pular carnaval ao som dos “grandes artistas da música baiana”, seja lá o que isso signifique, porém tem vários amigos que gostam de ver e ouvir a irreverência de um famoso cantor cinqüentão local, mas que esbanja o espírito e o frescor de um adolescente desmiolado. Não deixa de ver a saída do ilê-Aiyê, uma espécie de solidariedade política com o sofrimento do povo negro de Salvador, mas Ed Rose é incapaz de chegar perto da ladeira do Curuzu nos outros dias do ano. Segundo suas palavras, fazer isso é praticar turismo antropológico. Não tem tempo: os ônibus de Salvador tomam boa parte de sua semana, mas Ed Rose sempre agradece ao motorista quando desce da condução. Tudo isso só lhe causa um pequeno desconforto na quarta-feira de cinzas quando Ed Rose passa pelo centro da cidade e sente o cheiro forte e nauseante de urina, vômito e cerveja, mas não sabe por quê.

Ed Rose acredita que não se deve aceitar as ofertas sem vacilar. Por esse motivo, recusou ofertas de cargos em várias instâncias de governo, lhe convidaram para os postos que, até o momento, a coalizão política de plantão não possui quadros para ocupar. Ficou sabendo, com certo pavor, que “salário de verdade” – para a turma que fez movimento estudantil com ela na época da faculdade e que agora está apinhada nos aparelhos de estado— é dez mil reais para cima. Menos, é salário de miséria, ou melhor, não é. Sente um prazer ingênuo e certa inveja também por não fazer parte disso. Tem um sentimento de pureza e parece se orgulhar disso.

Ed Rose não tolera coisas mal-feitas. Por isso tende a exagerar nas doses de crítica e nos comentários que direciona a tudo que vê, ouve ou lê, não se sente melhor com isso, mas apenas pensa que as coisas poderiam ser diferentes; por esta razão seus textos exalam uma maledicência e ressentimento congênitos, traços marcantes daqueles seres que desistiram da própria existência e passam a se interessar pela vida alheia. Acredita assim poder dar sentido à sua vida: isso sim é serviço social, balbuciou certa vez com ar de contentamento. Por esse motivo, Ed Rose não deixa de ser implacável consigo, com os amigos e, sobretudo, com os inimigos que ela prefere chamar de adversários. Resta saber se depois disso, Ed Rose vai sobreviver a si mesmo.

Por: Bigode

Nota: Bigode (Hermenegildo Damasceno da Mata, 44) é psicanalista existencio-freudo-lacaniano e atende, gratuitamente, às segundas-feiras num Box imaginário na Feira de São Joaquim em meio a cortes de maminha, alcatra, chupa -molho, patinho e picanha. Ele aceita vale e passe.


Sem(pre)tensão


No dia 05 de agosto de 2009, a banda baiana de rock, rockabilly, surf-music e quijandos, Retrofoguetes, fez o lançamento de seu segundo álbum intitulado Chachachá, no teatro Castro Alves (TCA) – templo das grandes produções culturais e de expressões artísticas supostamente mais refinadas e eruditas, espaço destinado às apresentações mais comportadas que, igualmente, exigem tal conduta da platéia(alías, o bom mocismo da platéia foi algo elogiado pela banda e direção do teatro). Pois bem, a escolha do lugar do show dá o que pensar. Estaria implícita nesta atitude uma necessidade de reconhecimento artístico e de maturidade dos rapazes, daí a realização do lançamento do álbum no TCA? Deixando essa questão em aberto, o espetáculo, pois foi isso que se viu por lá, também pode ser uma oportunidade interessante para pensar o cenário das minguadas produções culturais de Urinópolis ou Fezolândia (mais conhecido nos roteiros turistas nacionais e estrangeiros como Salvador).


O show. Devidamente paramentados para ocasião, todos os componentes da banda vestiam macacões brancos com detalhes em preto (assim parecia). Foi um show correto, os músicos estavam entrosados e tudo bem ensaiado. Eles apareceram de modo surpreendente no palco através de uma elevação na sua parte posterior. A partir daí, certo clima de ovação tomou conta de uma parte da platéia – composta por agentes e puxa-sacos da “cena” roqueira(sic) desta vila, apesar de perceber que muitos integrantes de bandas invejosos e ex-artistas em atividades faltaram à festa. Parecia uma espécie de comunhão e orgulho pela conquista daqueles moços oriundos da Cidade Baixa, mais particularmente, do Bonfim.


A banda apresenta um inegável crescimento e apuro técnico, basta comparar as formações que antecederam o atual trio: Os Feios e The Dead Billies. Tal comunhão se expressava nas manifestações de intimidade inusitadas e, aparentemente, bem-humoradas através dos indefectíveis pedidos de “toca Raul”, “vumbôra Baêa”, lançados pelo público e ironizados pelos músicos da banda. Esse clima de ensaio de banda de garagem, naquele lugar, parecia convidar a todos para uma mescla despretensiosa de profissionalismo da produção – expressa pelo apuro na iluminação, no entrosamento com os músicos convidados e a qualidade do som – e a sisudez do teatro e, ao mesmo tempo, com a anarquia, a rebeldia e a irreverência dos rapazes. Essa irreverência aparecia também nas bisonhas piadinhas feitas entre os músicos da banda, deles em relação aos convidados e ao público. Isso talvez sugira a presença (incômoda?) que algo ainda precisa ser aparado ai, ou seja, talvez indique que essas inocentes brincadeirinhas, para além de sua aparente leveza, descontração e auto-ironia, marcam um profissionalismo ou maturidade que ainda não se completou. Isso não parece dizer algo sobre as vicissitudes das produções culturais de Urinópolis? Há algum problema nisso? Não, não há.


Por isso mesmo, talvez seja interessante assumir, sem ingenuidade, a precariedade como forma. Em outros termos, seria possível acompanhar a premissa do Bandido da Luz Vermelha de Rogério Sganzerla, e dizer: “quando a gente não pode, a gente esculhamba”. O que levaria a deixar a pretensão de lado e se contentar a ser o que apenas se é. No caso da música e das produções culturais baianas, vale dizer, aceitar o fato que não se é e não se faz grande coisa por aqui.

Por Ed Rose da Sucursal do Alto das Pombas

NOTA: Ed Rose ( Edelzuíta Roselícia Bispo, 37) é uma pessoa dada a poucas firulas metafísicas. Exercita um certo mal-estar e mau-humor com leves pitadas de ironia e, às vezes, destempero emocional. Faz críticas mal-arrumadas de si e de tudo que está em seu entorno, não poupa ninguém, nem mesmo a bruxa do 71.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Meu Ódio Será Sua Herança

Os três editores associados deste blog pedem para esta eminência parda que vos fala que discorra sobre um dos filmes que inspirou esta publicação e o qual empresta não apenas a imagem ao avatar, mas o seu espírito ( no sentido Hegeliano, é claro!) , bem como o sentido literal da tradução do título em português. Meu Ódio Será a Tua Herança ( The Wild Bunch, EUA, 1969) do diretor Californiano Sam Peckinpah se passa em 1913 durante a Revolução Mexicana e abrange o final de um período da história americana chamado Velho Oeste.
O filme aborda a trajetória de um bando de veteranos foras da lei que se hospeda em uma cidade mexicana para assaltar o escritório da empresa ferroviária do local. Durante o roubo, seus integrantes são surpreendidos por um grupo de também veteranos caçadores de recompensa, levando-os a fugir para uma pequena vila natal de um dos membros do bando. Lá eles são convencidos a lutar ao lado de seus moradores contra as forças do governo mexicano.
A película traz os experientes atores William Holden, como o líder dos fora da lei, Ernest Borgnine, como um dos seus parceiros, e Robert Ryan, como o chefe do grupo de mercenários. Aliando velhos clichês do gênero com uma violência levada ao extremo, marca da estética de Peckinpah - que influenciaria outros realizadores como Quentin Tarantino -, Meu Ódio Será a Tua Herança utiliza inovadores padrões técnicos como ângulações anti-convencionais e câmera lenta, estranhos aos faroestes até então realizados.
Apesar do paralelo com os chamados Westerns Spaghetti - faroestes produzidos e dirigidos no mesmo período por italianos como Sergio Leone( Era Uma Vez no Oeste) que traziam a violência explícita como característica -, o filme de Peckimpah mais do que desglamourizar os elementos do gênero os toma como alegoria de como sobreviver com ideais em um mundo brutalizado e violento; como vocês verão, esse será um dos temas que permeará toda a existência deste Blog.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Comentário Fúnebre


Estava animado o féretro do Wacko Jacko. O Esquife dourado reluzia os holofotes e estrelas que compareceram ao "showlório" do vitilírico cantor ex-afro-americano. Algumas dessas celebridades do mundo do entretenimento estadunidense deram até uma palhinha, como a desafinada cantora (do) brega, ex-senhora David Geffen, Mariah "Golpe do Sofá" Carey e o cantor Steve Wonder - que parecia não ver com bons olhos aquele espetáculo. Com duração de duas horas e transmitido para todo o mundo via TV e Internet, o programa nos possibilitou finalmente conhecer os filhos do ídolo que aparentavam ser mulçumanos uma vez que apareciam sempre com um véu no rosto. Destaque para os modelitos dos óculos escuros dos irmãos Jackson, além das luvinhas estilizadas em alusão às que o falecido utilizava. O detalhe mórbido vai para o interesse de parte da imprensa americana em saber qual evento deu mais audiência se a posse de Barack Obama ou o velório do autor de "Thriller", sendo que o primeiro, mais vivo, foi assistido por um maior número de espectadores.




Vaya con Dios Michael! E como diria Vincent Price no mega hit acima citado:


Darkness falls across the land

The midnight hour is close at hand

Creatures crawl in search of blood

To terrorize y'alls neighborhood

The foulest stench is in the air

The funk of forty thousand years

And grizzly ghouls from every tomb

Are closing in to seal your doom

And though you fight to stay alive

Your body starts to shiver

For no mere mortal can resist

the evil of the thiller

Nota de Tradução: As trevas caem por toda a parte./Os ponteiros estão perto da meia-noite./Criaturas rastejam em busca de sangue/Para aterrorizar toda a tua vizinhança. /E quem quer que ainda se ache em vida/Sem a alma necessária para a descida/Deve erguer-se diante dos cães do inferno/ E apodrecer dentro dum invólucro eterno. A forte fedentina vai se espalhando,/Um fedor acumulado em quarenta mil anos,/E de todas as criptas os espectros assassinos/Vêm se aproximando para selar o teu destino. /E apesar de ainda lutares por tua vida/Teu corpo começa a tremer sem parar, /Pois nenhum mero mortal é capaz de resistir/
Ao sinistro do terror!/
ahahahahaahahahahahahahahahahahahahah!!

Invasores de Corpos


Queremos importuná-lo com essa publicação: assim diriam os seus editores os quais antes de iniciarem a vida útil desse blog entraram de férias e me delegaram essa peleja.
Alguns pontos são necessários explicar:
1. Falarão eles de quase tudo, mas centrarão seus advérbios na cultura(sic) soteropolitana, nas relações amorosas, nos discos de Roberto, nos filmes de outrora ou da semana e tudo mais que experimentarem ( com ou sem seringa);
2. Exporão imagens e pessoas de maneira gratuita, mas quase não citarão nomes - uma medida preventiva ( se bem que é possível que eles nem usem camisinha);
3. Os editores desse blog são pessoas velhas e estão se estabelecendo em suas vidas, consomem boa música, bebem bons vinhos, assistem a bons filmes e reclamam da vida, ou seja, aceitarão de bom grado companhias como as deles;
4. Por favor, se alguém se sentir ultrajado com os seus comentários e críticas não os procure: eles estão como o Aristides: frágeis, delicados e sem recursos;
5. Pediram para dizer que os legistas que fizeram a autópsia de Michael Jackson e declararam que ele era branco faziam todos parte do Movimento Negro e usavam luvas pretas enquanto operavam o bisturi.
6. Pediram para dizer também que Ivete, la preña, não vai cantar no próximo carnaval se não tiver o Cheiro nem a Eva.
7. E pediram para dizer aos habitantes de Urinópolis ou Fezolândia ( conhecida também como Salvador) para ficarem despreocupados porque o H1N1 só se prolifera em locais limpos, apesar do apelido de gripe suína.
Viva Curitiba !!!!!!!!!!!!!!
Viva João Pessoa!!!!!!!!!!!!!
Até mais!!
Ass: Eminência Parda ( ou, melhor, Eminência Afro-descendente Mestiça)

Nota1: Foto do filme Invasores de Corpos, EUA, 1978 de Philip Kaufman com o sensacional Donald Sutherland.
Nota2: No 2 de julho o Governador caminhou ao lado de Johnny Walker.

A baianidade

Esse mal que nos acomete; esse jeito fuleiro de ser; esse berimbau que desafina.